OS SEUS, OS MEUS & OS NOSSOS




“Tantas crianças já sabem que todas elas cabem no nosso balão. Até quem tem mais idade, mas tem felicidade em seu coração”.
Superfantástico – Djavan e A Turma Do Balão Mágico.  

Nos três meses finais do ano de dois mil e um, Lincoln e Vinny Dorsey tentaram em vão arranjar um meio de promover um encontro ao vivo entre seu pai e Milla, tia de Vinny. Apesar dessa frustração, a amizade entre os dois crescia a cada dia por meio da internet. Mesmo com toda a alegria que os garotos sabiam que seu pai tinha por tê-los como filhos, ambos notavam o olhar de menino alegre que Victor passava a ter, cada vez que passava horas na internet conversando com alguém que estava em outro estado.

A parte da conversa que Victor compartilhava com os filhos dizia respeito a conspirações em geral. Mas, quanto tinha somente a tela do computador à sua frente, ele se aventurava a conversas um pouco mais sentimentais, embora fizesse de tudo para não desrespeitar uma senhora casada.

Dois fatos viriam a mudar um tanto o lar dos Dorsey no início do ano de dois mil e dois. Um deles foi o convite que a NBA (Associação Nacional de Basquete) fez ao time Falco Kosárlabda Klub Szombathely, da Hungria, para alguns jogos amistosos em Boston. No time havia jogadores com nomes estranhos como Bálint Horti, László Kálmán, Tibor Pankár, mas também um jogador americano chamado Donald Wilson. E alguém que realmente deixou Victor Dorsey exultante de alegria ao saber que viria: um garoto brasileiro chamado Murilo Benício Dias.


Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente.  Isaías 40:11

O motivo do convite foi o brilhante desempenho do time no campeonato Europeu. Quando a competição estivesse terminada os jogadores estariam de férias por três meses. Victor então convidou Murilo para conhecer seus filhos naquele período de descanso. O que foi não só aceito como recebido com muito entusiasmo. Não só por Murilo como também por Lincoln e Vinicius que muitas e muitas vezes ouviram seu pai falar do jogador de 20 anos. Foi esse garoto que quando tinha nove anos de idade pediu ajuda a Victor para não ficar cego e pagou a ele com um pudim de leite e uma declaração de amor.

O outro acontecimento foi o fato de Victor ter recebido dois convites para uma palestra com o professor inglês Antony C Sutton no lançamento de seu livro: The Order, An Introduction To The Skull And Bones. Os garotos Dorsey exigiram que Victor convidasse Milla para a palestra e também para passar uns dias em sua casa com sua filha Barbie.


Antony C Sutton 
Skull And Bones - A Irmandade Da Morte


Como a palestra aconteceu no mesmo dia do primeiro jogo os garotos combinaram de ir ao jogo com Barbie. Depois do jogo sairiam para mostrar a América para Murilo, enquanto Victor iria à conspiratória palestra com Milla. Após vários anos jogando na Europa, o inglês de Murilo era perfeitamente inteligível. O encontro de todos eles, menos Murilo, foi no Legal Harborside, restaurante no qual Victor conheceu o jogador Lou Merloni, do Red Sox.

A empatia entre Victor e Milla foi instantânea, pareciam que eram amigos de longa data. E Victor intimamente reconheceu que Milla era tão linda quando Vinny tantas vezes lhe dissera. Os garotos então decidiram sair rapidamente, com Barbie, para encontrar Murilo no estádio e deixar os dois no restaurante para quem sabe algo interessante acontecer.

Então, irei ao altar de Deus, do Deus que é a minha grande alegria, e com harpa te louvarei, ó Deus, Deus meu. Salmos 43:4
Copley Place - Boston MA


Mesmo os garotos só conhecendo o Murilo por meio de fotos, o encontro de Lincoln, Vinny e Barbie com ele no estádio foi muito divertido. O primeiro jogo foi com o Boston Celtics na TD Garden. Nas duas horas que passaram juntos antes do jogo, Murilo contou sobre como Victor o tinha ajudado quando criança e também um pouco da história do sofrimento que ele e Letícia passaram até o falecimento da moça. Murilo deixou bem claro que o motivo de Victor deixar o Brasil foi a perda de sua noiva. Lincoln, Barbie e Vinny contaram também cada qual um pedaço de suas histórias. Ao fim do jogo que foi ganho por dez pontos para o time de Murilo, sendo ele o cestinha do jogo, a criançada saiu para se divertir no Shopping Copley Place. Enquanto caminhavam, a conversa fluía: 

- E aí Barbie, você acha que sua mãe está realmente sentindo alguma coisa por nosso pai?

- Ela fica toda feliz quando termina de conversar com ele, então está sim.

- É impressão minha ou vocês estão tentando arranjar um casamento em família?

- É isso aí Murilo. De todos nós, você é o que conhece o daddy há mais tempo. Você não acha que está na hora de ele arranjar uma esposa?

- O Victor ficou muito traumatizado com a perda da Letícia. Foi um sofrimento muito grande. Talvez isto o tenha deixado sem muita fé de que outra pessoa o fizesse feliz.

O fato de estarem com alguém famoso, e que fazia parte da vida de Victor, fez com que os rapazes e Barbie se sentissem privilegiados. Murilo tinha o tom da pele moreno claro e tinha uma aparência obvia de não ser americano. Seus cabelos e sobrancelhas eram pretos e os olhos tão verdes quanto os de Lincoln. O rosto, apesar de fazê-lo parecer bem mais jovem do que era, tinha certo ar de liderança. Seus dentes intensamente brancos faziam com que seu sorriso fácil o deixasse bem atraente. Apesar de seu cabelo ser bem liso ele o deixava sempre curto. Já Barbie era a típica loira dos olhos azuis. Ela até se sentiu privilegiada, pois de todos eles, era a pessoa que mais parecia com Victor Dorsey.

- Você mora sozinho na Hungria? Sua família ficou no Brasil? – Barbie perguntou.

- Meu pai morreu quando eu era bebê e minha mãe morreu em um acidente de carro quando eu tinha 15 anos.

Os dois rapazes, que já conheciam a vida de Murilo, através de Victor, fizeram de tudo para ele não se sentir desconfortável. Mas ele continuou.

- O Victor já estava aqui na América e para mim foi muito duro crescer sem referência nenhuma. Mas, alguns meses depois da morte de minha mãe, eu fui convidado para jogar basquete na Hungria e lá me senti um pouco mais em família.

- Você mora mesmo em Budapeste? Eu sempre vejo essa cidade em filmes de espiões. Tenho até a impressão que o Tom Cruise mora lá. – Lincoln era realmente o mais animado com a presença de Murilo

- Quanto tempo você ainda vai jogar neste time? – Vinny acrescentou. – Bem que você podia jogar em algum time daqui. Nosso pai é fã incondicional seu.

- É. Budapeste é bem legal. Uma cidade bem antiga. Mas a cidade que eu moro chama-se Szombathely. Eu acho que Budapeste tem mais de mil anos, só que Szombathely é bem mais velha. Tem uns dois mil anos. Até agora o único convite que tive para jogar fora da Hungria foi no Brasil. E não tenho muita vontade de ir para lá.

Deus é a minha fortaleza e a minha força, e ele perfeitamente desembaraça o meu caminho. 2 Samuel 22:33


Murilo confidenciou aos três sobre como Victor sempre foi alguém que protegia quem era injustiçado, mesmo que isto significasse ficar com má fama. Falou da vez em que ele o convidou para ir a uma viagem que a igreja iria fazer em Fortaleza, uma cidade bonita em outro estado. Neste passeio alguém chamou a atenção de Murilo por comer demais. O alimento em questão era um macarrão intragável, que ele só comeu por desespero causado pela fome. Quando voltaram para Recife, Victor aproveitou uma ocasião em que ele seria o pregador da noite e chamou todo mundo na igreja de lobos em pele de cordeiro. Ele estava tão irado que jogou no ventilador toda a merda acumulada nos anos que estava ali. Foi a última vez que eles pisaram lá.

- Tem algo que eu nunca falei para ninguém sobre o Victor e que eu gostaria que vocês soubessem. Mas não é para contar para ele de modo algum.

Os garotos pararam na praça de alimentação do Shopping e pegaram lanche. Lincoln e Vinny fizeram questão de rachar as despesas somente entre eles dois. Disseram que Murilo e Barbie eram seus convidados de honra.

- O que você quer falar sobre o pai, Murilo? – Perguntou um curioso Vinny.

- Depois que ele me ajudou a não ficar cego eu passei a vê-lo de um modo diferente. Antes ele era só um cara legal que gostava de ajudar todo mundo. Mas ficar cego aos nove anos é algo que não me agradava muito. A partir daí eu desejei não somente ser filho dele, como quis mudar meu nome para Victor Almeida Junior.

Impressionado com aquela afirmação, Lincoln que sabia bem o que é não compartilhar sentimentos, perguntou:

- Você faz ideia do tanto de vezes que eu tive ciúmes de você, antes de conversar com nosso pai sobre o meu amor por ele? Ele só vivia falando de você como de um filho de quem tinha muito orgulho. Acho que foi este ciúme que me fez me abrir com ele.  Meu pai fala tanto de você que quando eu fui parar em um hospício imaginei que nossa família era brasileira e que você fosse meu irmão biológico.

Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós. João 14:20
Jorginho (Cauã Reymond) e Tufão (Murilo Benício) em Avenida Brasil


- Sério? Eu nunca achei que o Victor pudesse me ver como um filho?

- E por que você acha que o seu uniforme está emoldurado na sala principal de nossa casa? O uniforme original do Red Sox que o Lou Merloni deu para ele, só saiu do armário quando eu cheguei lá. Eu não conheço um dia em que não tivesse que saber que Murilo era alguém especial na vida do meu pai. Se você não teve um pai por dez anos foi porque não quis.

- Então. – disse Barbie – quando o pai de vocês finalmente se casar com minha mãe vamos ser uma família bem grande.

Décimo sétimo capítulo do romance NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS
Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR
DORSEY / VICTOR DORSEY
NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325
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