A CRECHE DO PAPAI

Monte Monadnock - New Hampshire - EUA


“Eu olhei em seus olhos e encontrei uma ternura tão grande ali!”
 You Gave Me Love – Tokero & Mechille

Para Victor e Lincoln nem parecia que o tempo tinha passado. Oito meses já os separava daquele dezembro frio e muita coisa mudou em suas vidas. Victor não permitia que o garoto gastasse seu salário com coisas como alimentação ou roupas, afinal já tinha bastante.

Ele o ensinou também a ter gosto por cinema e a pensar sobre as reais mensagens que os filmes mostravam. Como a folga dos dois eram no mesmo dia, eles sempre iam ao Taunton Mall. Chegavam a assistir três filmes em um único dia. E sempre que possível Vinny, amigo dos dois, ia junto.

- Vocês já notaram como os diretores dos filmes gostam de mostrar policiais corruptos e bandidos sofredores? – disse Vinny certa vez.

- É mesmo. – emendou Lincoln – Dá até pena do pobre do Sean Penn no corredor da morte.



- Se a América aceitasse aquele discurso bobo dele em “Os Últimos Passos De Um Homem”, este país seria como o Brasil, onde ser assassinado está se tornando um hobbie. Lá morre mais gente do que em qualquer guerra em qualquer lugar do mundo, em qualquer período da história. Aqui a situação é diferente. Aqui o povo se mata. Suicídio é a maior causa de morte entre adolescentes.

- Houve um tempo em minha vida que eu pensei em me matar também. – Disse Lincoln. – Cheguei a cortar os pulsos.

- Sorte nossa que você não conseguiu. Infelizmente o governo e os conselhos de medicina vivem entupindo o povo, especialmente os adolescentes, de antidepressivos. E a maioria desses remédios é simplesmente veneno que a indústria farmacêutica faz e depois subornam os médicos para passarem adiante. E é exatamente este excesso de antidepressivos que está fazendo o povo se matar e matar os outros. Quando as pessoas entenderem que a indústria farmacêutica só se importa em ter clientes o número de pessoas envenenadas por ano diminuirá bastante.



Aquele mês de agosto trouxe uma alegria especial a todos no restaurante e também na igreja que os dois passaram a frequentar. Após dez anos no país e por causa de um empreendimento que trouxe emprego para vários cidadãos americanos, o governo do senhor George Walker Bush resolveu conceder a cidadania a Victor Almeida. 




Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Efésios 6:12


Os amigos mais chegados, inclusive os pastores Jason Freeman e David Swensen, e o irmão Jeremy de outra igreja, estavam presentes no dia em que Victor jurou lealdade à sua nova pátria.  Lincoln e Vinny nem conseguiam acreditar que estavam na Casa Branca. Mas o mais orgulhoso de todos era Lincoln que deu ao amigo uma camisa oficial do The New England Patriots, do qual este era fã; autografada pelo astro Tom Brady, que naquele tempo passou a ser o homem de seis milhões de dólares, de salário anual.

Porque assim diz o Yave: Por nada fostes vendidos; também sem dinheiro sereis resgatados. Isaías 52:3



Entre as coisas que Lincoln já sabia sobre seu patrão, estava o fato de que ele costumava fazer escaladas quando morava no Brasil. O convenceu então, a irem os dois a uma pousada em Jaffrei, New Hampshire, estado vizinho, na qual as pessoas iam para escalar uma montanha. Desta vez ele preferiu ir sozinho com seu amigo-patrão.

- Garoto, faz tanto tempo que não escalo algo que, talvez, fique no meio do caminho.

- Vic, se você fosse algum inválido não aguentava aquele monte de pratos do restaurante. Eu acho bacana que ainda hoje você dê uma força pros lavadores de prato como fazia comigo.

- Um dia talvez você entenda que eu não vejo você como um empregado. Mas eu aprendi isto com meu antigo patrão, Bill Curley. Mesmo chegando em sua Pick Up de luxo, ele sempre me ajudou quando o lugar estava cheio.

You Rise Me Up (Você Me Levanta) - Colton Haynes (Arrow)


Para se prepararem para subir na vida, eles foram ao Target e ao Wall Mart comprar equipamentos de segurança e alimentos apropriados para consumirem no alto da montanha Monadnock. O estacionamento estava lotado e Lincoln deixou o carro na Best Buy, que era bem próximo, e de lá os dois foram andando. Desde o começo, Victor permitia que o garoto dirigisse seu Lincoln quando os dois saiam. Tinha até certo orgulho disso. Dizia que gostava de ver o Lincoln dirigindo o Lincoln.

Lincoln fez questão de pagar tudo com seu próprio dinheiro. Mas quando estava no caixa, lembrou que não tinha um tênis apropriado para a ocasião. Pediu a Victor para levar tudo para o carro e voltou à loja, onde escolheu um tênis com camuflagem verde e solado especial. Quando foi pagar, o rapaz do caixa entregou um chaveiro a ele e falou:

- Acho que isto caiu do bolso do seu pai.

O garoto verificou que realmente era de Victor e agradeceu com um sorriso que ia de um canto ao outro da boca.

A subida não foi tão fácil quanto os dois imaginavam. Lincoln, em alguns momentos, teve de esperar o amigo se recuperar.

- Vamos lá chefe. Onde foi parar seu ânimo.

- Olha. Eu estou quase morto. Mas se você me chamar de chefe de novo eu juro que jogo você montanha abaixo. – (Victor estava visivelmente irritado) – Neste tempo todo que me conhece você já me viu tratar mais algum empregado do mesmo modo que trato você?

- Eu tenho até medo do que vou dizer. Mas já faz um tempinho que quero tratar você de outro modo.

- Você inventou algum termo mais cretino do que chefe pra me chamar?

Victor abaixou a cabeça, envergonhado, quando percebeu que tinha gritado com o garoto. Lincoln olhou fixamente em seus olhos azuis e disse:

- Não daddy. Eu não quero irritar você!

Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. Romanos 8:15

- Do que foi mesmo que você me chamou?

- De daddy. Faz tempo que eu tento entender o que está acontecendo comigo. E a única conclusão que cheguei é que amo você, como eu nunca conseguiria amar Brian Holts. Então, se você não se importar, eu gostaria que você me permitisse amá-lo, assim como um filho ama o pai, e ter a esperança que algum dia você me ame, assim como um pai ama o filho.

Victor até esqueceu o quanto estava cansado. Abraçou Lincoln ternamente. Deu um beijo em sua testa e disse, enquanto uma lágrima escorria de seu rosto:

- Eu já amo você meu filho. Desde o primeiro dia em que eu o vi, eu soube que você era um presente de Deus para mim. Você me fez até ter o desejo de ser um homem melhor, para poder ser um bom exemplo para você.

- Quando eu entrei em sua casa foi que aprendi o que significa ser feliz. Mas nada se compara ao que estou sentindo agora.

O resto da subida foi muito mais fácil. A felicidade dos dois parecia dar super poderes e eles até estranharam já terem chegado.

- Sabe o que é melhor de tudo?

- O que é daddy?

Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. Salmos 82:6
O Homem Da Máscara De Ferro

- É que agora que não posso mais ser confundido com um marciano, posso adotar você sem problema algum. E pensar em tudo que passei por aqui. Você sabia que eu cheguei a morar em um fusca?

- Nossa Daddy! Você nunca me disse isto. – Lincoln repetia aquela palavra, como se tivesse que memorizar uma fala de uma peça de Shakespeare.

- Eu não gosto de viver chorando. A não ser de felicidade, por ganhar um filho lindo como você. Mas eu passei muita coisa ruim por não saber falar inglês.

Aquela conversa deixava pai e filho com um olhar diferente. Parecia que tinha acabado de descobrir a fórmula para a felicidade.

- Teve uma vez que passei um tempo, para uma moça do Starbucks entender que eu queria um simples café com leite. Advinha o que aconteceu depois?

- Não faço a menor ideia.

- Apareceu outra moça falando em português com ela.

Ambos riram daquela situação bizarra.

E vos deu vida, estando vós mortos em ofensas e crimes. Efésios 2:1

- Minha sorte é que tive muita gente que me ajudou bastante. Uma amiga minha, Kristin, comprou um computador para mim em seu cartão de crédito, porque eu não tinha como pagar à vista. Eu não assinei nenhum papel, mas ela confiou que eu iria pagar. Assim como o fiz. Eu costumava dizer pra Kris, quando pegava carona com ela, que, um dia ia encontrar um homem morto em seu carro. Tinha coisas que eu nem conseguia acreditar. Estranho mesmo foi o dia em que ela, no fim da noite de trabalho, simplesmente levantou a blusa e perguntou se eu já tinha visto os piercins dela. Um em cada bico do seio. Perguntou se eu não queria ver o outro, mas eu respondi que preferia não ver.

Lincoln riu descontroladamente e observou:

- E eu pensando que você era inimitável.

- Sou não, meu filho. Eu acredito que quando o ser humano quer, ele consegue fazer coisas incríveis. O problema é que as pessoas olham umas para as outras, como se todo mundo fosse parte de uma torcida. Acham que o fato de existir uma maçã podre, faça com que todas as maçãs sejam podres. Você olha para todas estas árvores aqui nesta montanha e o povo chama isto de floresta. Na verdade não existe floresta alguma. Só árvores.

- Muitas vezes eu me senti sujo, por causa do modo como o senhor Holts me tratava.

- Só que você é um indivíduo completamente diferente dele. Eu creio que você nasceu do senhor Holts para que eu pudesse um dia conhecer você, e amá-lo do jeito que eu amo.

- Eu também amo você, daddy. Eu gosto muito mesmo de conversar com você. Acho que nunca conheci alguém tão inteligente quanto meu pai.

Victor acariciava o cabelo do garoto e apesar de ser menor que ele parecia que tinha ganhado um bebê. Lembrou então de sua noiva e imaginou como seria se ela estivesse ali também. Parecendo que lia pensamentos, Lincoln disse:

- Agora só falta você arranjar uma mãe para mim. Você não acha que está na hora de pensar sobre isso?

- Por enquanto deixa eu ser feliz por ter você. Não sei se estou preparado para este tipo de relacionamento.

- Daddy. Sua noiva morreu, não foi você. Você acabou de dizer que nunca vai me tratar como parte de uma torcida. Então se permita ser um indivíduo com uma vida feliz. Eu não quero ter um pai meio morto.

- Prometo que vou pensar nisso. Mas, não me pressione.

- E você acha que algum dia, eu vou querer ver o melhor pai do mundo chateado comigo? Mas tem outra coisa que eu queria conversar com você. É sobre o Vinny.

- Eu tenho notado que ele tem ficado muito triste ultimamente. O que está acontecendo?

- Lembra o que ele falou sobre a mãe dele quando foi em nossa casa a primeira vez?

- Ele parecia muito amargurado com ela.

- Quando ele pediu a você para colocá-lo na cozinha, foi porque ele queria sair logo de casa. Ele está morando sozinho. E depois que ele saiu de lá a mãe dele nunca mais sequer falou com ele. Eu estou preocupado com ele, porque sei que tipo de pensamento se passa na cabeça de um adolescente quando se sente abandonado. E que tipo de besteira pode fazer.

- Você acha que ele está fazendo algo que possa se arrepender depois? Ou pior ainda, algo que ele não tenha tempo de se arrepender?

- Não sei, daddy. Ele conversa bastante comigo. Mas ele disse que uns amigos das antigas têm ligado para ele. Amigos do tipo que podem viciá-lo em drogas ou levar para um mundo de prostituição.

- E o que você acha que eu devo fazer?

- Você conheceu o Vinny, pelo menos uns dois anos, antes de mim. Você sabe que ele é legal e o que é mais importante, que ele é confiável. Então, já que você não me arranjou uma mãe ainda, quem sabe me arranje um irmão!

E cumprindo-se os seus dias para dar à luz, eis gêmeos no seu ventre. Gênesis 25:24
- Olha, devo confessar que isto já me passou pela cabeça. Principalmente depois que ele veio me falar de você. Você vai achar estranho, mas eu já consultei um advogado sobre isto. Ele me disse que eu só poderia adotar vocês se fosse cidadão americano. Só o Green Card faria o processo ser longo e trabalhoso. E foi o Vinny quem me incentivou a fazer isto. Você acha que ele aceitaria fazer parte de nossa família?

- Você ainda tem dúvida disto?

Então quando voltarmos o chamamos em casa e falamos sobre isto.

O sol já se punha quando os dois desceram a montanha Monadnock. Pai e filho combinaram de só tratarem sobre o outro membro da família pessoalmente. Aquele dia selou o resto de felicidade que faltava para Victor e Lincoln Dorsey.

Oitavo capítulo do romance NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS
Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR
DORSEY / VICTOR DORSEY
NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325
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