A PROCURA DA FELICIDADE

Rua Winthrop - Taunton - MA



 Todos nós necessitamos de alguém que nos consiga ser fiel.”
Dear God – Avenged Sevenfold

Às cinco horas da manhã Lincoln já estava em pé. Fez o possível para não acordar o sujeito que dormia na parte de baixo do beliche e foi para o banheiro tomar uma ducha.

Suas emoções eram confusas desde que mudara para aquele abrigo público. Como não queria ir para um orfanato, nem ficar em lares adotivos, mentiu sobre sua idade para a assistente social que lhe arranjou aquele lugar. Mas sabia que tinha da arrumar um local só seu. Além de não gostar do incômodo de morar com estranhos.

Antes de conseguir aquela vaga tinha passado uns tempos com dois amigos da escola. Mas a vida de maconha, bebida e sexo dos camaradas lhe causavam irritação, dor de cabeça e mau humor. E definitivamente aquela não era o tipo de vida que queria levar.

Apesar dos seus 16 anos tinha um metro e oitenta e cinco de altura e calçava sapato quarenta e dois. Tinha o cabelo castanho e olhos verdes claros. O rosto ligeiramente arredondado e os lábios rosados. Usou aparelho por muito tempo para consertar os dentes e agora que os tirou não se achava tão esquisito.

Sua magreza não era exagerada e talvez por ser neto de alemães, sua pele era incrivelmente branca. Bastava ficar encostado em algo por algum tempo para ficar com marcas vermelhas no corpo.



Suas roupas não eram a última moda. A situação ruim fazia com que ele tivesse de pegar roupas usadas numa casa que a Sociedade São Vicente de Paula usava para distribuir roupas e alimentos para a população pobre da cidade.

As doações vinham do comercio local. Mas era lá também que as famílias da cidade deixavam roupas que não usavam nem queriam colocar nas vendas de quintal. No verão eles pegavam coisas que tinham comprado no inverno e nem usavam e colocavam para vender na porta de suas casas.

O garoto tinha um gosto particular de moda e geralmente usava camisetas bem coladas ao corpo magro e costurava a bainha da calça para não parecer que tinha pano demais cobrindo suas pernas finas.

Como o inverno daquele ano estava rigoroso vestiu uma espécie de meia calça que ia até o pé. Mesmo sendo finas elas aqueciam bastante sendo que o único incomodo era causar a queda dos pelos das pernas.


Vestiu uma blusa de um time de basebol chamado Orioles e saiu à procura do restaurante. A escolha da blusa era porque era a única que tinha lã de vidro por dentro e isto aquecia bastante.

A falta de dinheiro fez com que fosse a pé. Como a rua era a mesma da igreja pensou que fosse perto, mas teve que caminhar quase uma hora na direção de Providence, capital de Rode Island. Ao chegar ao restaurante encontrou um sujeito com capuz negro tirando neve do estacionamento e perguntou a que horas o dono do restaurante chegava. Victor que estava de costas virou-se, tirou o capuz, deu um sorriso enorme e aproximou-se de Lincoln.

- Oi amigão. Que bom ver você de novo. Fiquei com receio que não viesse, mas pelo jeito você está precisando mesmo de um emprego. Chegou bem mais cedo que eu imaginava.

A simpatia de Victor era contagiante e Lincoln aceitou de bom grado o abraço que ganhou dele. Apesar de não ser acostumado com aquele tipo de afetividade, ele definitivamente tinha gostado daquele sujeito.

- Eu não podia de modo algum perder esta oportunidade.

- Já estou terminando aqui. O restaurante está aberto e você pode me esperar lá na recepção. Não tem ninguém lá para incomodar você.

- Se tiver outra pá por ai posso dar uma mão.

- Sinta-se empregado. Gosto de gente assim. Geralmente as pessoas querem ganhar um bom salário, mas querem ficar escolhendo o que fazer.

Victor deu ao garoto a pá que estava usando e foi buscar outra. Passaram ainda um bom tempo limpando o estacionamento e num instante em que Lincoln parecia muito preocupado Victor encheu uma pá de neve e “acidentalmente” jogou no rosto dele, rindo descontroladamente.

- Desculpa, mas você parecia estar carregando o peso do mundo nas costas.  Pensei que seria legal ajudá-lo a esfriar a cabeça.

Lincoln não aguentou e riu também. A não ser a noite anterior já nem lembrava quanto tempo se passou desde a última vez que tinha rido de algo. Ao terminarem o serviço entraram para a cozinha.

- Você já se alimentou hoje?

- Minha última ceia foi com você ontem na igreja. Estou realmente com fome e sede de justiça.

Victor riu da frase que acabou de ouvir e disse:
- Senta então naquela mesa que preparo algo pra nós. Bom ter alguém bem humorado por perto. Importa-se de comer comida brasileira?

- Desde que não seja cérebro de gorila tudo bem.

- Que bom que você é bem humorado. Pessoas amargas fazem mal para a vida. Senta naquela mesa que preparo algo pra nós. Importa-se de comer comida brasileira?

- Desde que não seja cérebro de gorila, tudo bem.

Victor ligou uma TV próxima à mesa em que Lincoln havia sentado e sintonizou um canal de filmes o qual mostrava o King Kong, segurando Jessica Lange perto do World Trade Center e Jeff Bridges enlouquecido querendo livrá-la do macaco gigante.
Não entendi a piada.

- Não entendi a piada.

- É que vi um filme com a Jeniffer Lopes que se passa no Brasil e pelo jeito lá só tem cobra e macaco.

- A sim. Com o tempo, trabalhando comigo, você muda de ideia sobre isto. Mas pelo filme que está passando talvez o povo do Brasil pense o mesmo sobre a América. Para você ter uma ideia, São Paulo, a maior cidade do Brasil, é maior que Nova Iorque e é conhecida como Selva de Pedra.


Selva De Pedra - Regina Duarte e Francisco Cuoco (1972)


- O que é isto? – disse o garoto diante de um bolo de milho que ele nunca tinha visto.

- O verdadeiro pão do céu.

Lincoln nunca tinha comido cuscuz, mas aquele bolo amarelo com codorna assada, acompanhado de café com leite estava realmente delicioso.

Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que deverei dar pela vida do mundo é a minha carne.” - João 6:51


- Você tem certeza de que é dono deste lugar?

Ele parecia estar realmente curioso.

- Sim sou. Pode parecer estranho, mas seu país é um lugar onde se pode prosperar com trabalho duro e sendo honesto.

- É que para um patrão você ainda acha necessário tirar neve do estacionamento e cozinhar para seus empregados.

- Amigão. Dá uma olhada naquela máquina de lavar pratos ali.

- O que tem ela?

- Ela funciona que é uma maravilha. Mas eu tive que troca-la pois a outra era bem precária, e usá-la para lavar pratos foi o primeiro emprego que tive em seu país. Eu realmente melhorei bastante de vida, mas sei que se não cuidar do que é meu existe uma grande possibilidade de eu voltar a lavar pratos para viver.

- Ué. Como assim? O lavador de pratos comprou o restaurante do patrão?

- É a vida. Ele teve um divórcio tumultuado e para não deixar tudo para a ex-esposa quis se desfazer do lugar. Eu peguei um empréstimo no banco, juntei com uma grana que tinha e o comprei. Vamos ao escritório lá em cima tratar do seu novo emprego. – disse ao terminarem a refeição – É só uma sala com uma mesa e um armário, mas chamar de escritório dá certo charme.

Victor apontou uma cadeira para o garoto assim que chegaram e tirou um formulário de um armário. Em cima do armário havia a foto de uma família tipicamente americana em algo que parecia a construção de uma igreja. Nela estava escrito: “Minha família americana”.

- Você tem uma família americana?

- Sim. Este é o pastor Henry Haswell, sua esposa Lottie e seus filhos Matthew e Daniel. Ele é missionário no Brasil ainda hoje. Ele é a pessoa a quem eu considero meu pai. Você trouxe seus documentos?

Lincoln tirou sua carteira de motorista e cartão de seguro social e passou para Victor.

- Olha você falou que não sabe fazer muita coisa. O que eu posso fazer por você é empregá-lo como lavador de pratos e com o tempo lhe ensino outras coisas. Tudo bem pra você?

- Melhor é impossível, chefe. Não estou em muitas condições de ser exigente.

- Você mora onde?

- No momento eu não moro. Vivo temporariamente em um abrigo. Mas já me falaram que vou ter de sair de lá.

- Vou fazer uma pergunta muito simples e dependendo de sua resposta talvez eu lhe faça uma proposta. Pode ser?

- Hoje você pode me perguntar o que quiser. Não vou ganhar nada ficando calado.

- Você não tem família?

- Meu pai mora em Brockton. Minha mãe morreu e eu sou filho único.

- Por que você não mora com seu pai?

- Ele é um alcoólatra doido. Tem transtorno bipolar e vive se entupindo de remédio. Um dia, depois de uma crise ele me colocou pra fora de casa sem nem um centavo no bolso. Eu não tive mais vontade de voltar.

Lincoln controlou a lágrima que começou a cair de seu rosto e novamente aceitou o abraço que Victor lhe deu.

Bay Street - Taunton - MA


- Vai ficar tudo bem. Olha! Eu moro só e no subsolo de minha casa tem um cômodo com uma cama, um banheiro e uma geladeira que já estavam lá quando eu comprei a casa. Tem uma porta que dá pra sair sem você necessitar entrar na casa. Só que é bem longe, na Bay Street, perto do lago. Você pode ficar lá até decidir o que vai fazer da vida. O que você acha?

- Tudo o que posso achar é que talvez você não seja real. Mas o abrigo onde estou é bem mais perto daqui e eu estou sem grana para a condução no momento.

- Isto não é problema se você não se importar de acordar cedo. Eu posso fazer seu horário ser igual ao meu e você vem comigo.

- Se meu pai fosse metade do que você é minha vida seria diferente. Obrigado, chefe.

- Quando você pode começar?

O rosto do garoto ficou radiante o resto do dia. Quem o tivesse visto no dia anterior pensaria que quem tinha algum transtorno era ele.

Terceiro capítulo do romance: NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS.
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