EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

As Torres Gêmeas - Recife - PE



“Eu atravessei o deserto. De algum modo eu consegui atravessar. Eu não sabia o quanto perdido eu estava até encontrar você.”
Like A Virgin – Pedro e Francisco (Portugal)

Algumas peculiaridades faziam parte do dia a dia de Victor Almeida. Ele era um leitor voraz e sempre analisava meticulosamente tudo o que lia. Quando há alguns anos ele leu um livro denunciando conspirações religiosas, não deu uma de cristão ofendido. Foi conferir nas fontes originais se algo daquilo tinha algum fundamento.

Ele descobriu, por exemplo, que Rupert Murdoch, dono de uma conhecidíssima editora americana de nome Harper Collins, havia comprado uma editora evangélica quase falida chamada ZONDERVAN. Entre outros livros, a Harper Collins publica coisas como os livros de Anton Lavey, o satanista mais famoso do mundo, e também revistas pornográficas.
                              
A curiosidade de Victor sobre este assunto o levou a descobrir que a maioria absoluta das bíblias publicadas no mundo após 1910 eram propositadamente falsificadas, em qualquer coisa que se relacionasse ao senhor Jesus.



O primeiro livro que ele pegou em uma biblioteca tinha o pomposo título de: Até O Mais Amargo Fim. Mas um que o divertia mesmo, apesar de nunca ter lido a obra, era chamado: A Longa E Incrível História Da Cândida Erendira E Sua Avô Desalmada.Sua tradução da bíblia predileta chamada de Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida tinha no mínimo trezentas mudanças em relação a uma publicação do mesmo autor que pertenceu a Dom Pedro II e que estava nos arquivos de um CD chamado Bíblia On Line publicada pela mesma editora e cuja cópia estava também no Museu Imperial do Rio de Janeiro.



Sua verdadeira paixão, no entanto, era mesmo o cinema. Seus filmes prediletos eram: “O Exterminador do Futuro II”, o qual ele sabia todas as falas tanto em inglês quanto em português, “O Silencio dos Inocentes” que deu a Antony Hopkins um Oscar por participar de 20 minutos de cenas e “Um Lugar No Coração” que ele assistira quando era membro da Igreja Presbiteriana do Derby e onde se apaixonou perdidamente por uma moça americana chamada Susan Clausel Eason, com a qual assistiu ao filme.

Ele considerava a moça tão perfeita que nunca teve coragem de se declarar, preferindo ser seu amigo inseparável. Com ela assistiu coisas como: “Uma Linda Mulher” e “Instinto Selvagem”.

O vento soprava calmamente, o que dava uma sensação de paz, quando Victor e sua noiva Letícia chegaram à Igreja Evangélica Batista de Casa Amarela. Mas o que todos estranharam mesmo foram todas aquelas flores e fitas enfeitando a igreja, como se algum casamento fosse ocorrer.

Ao entrar no templo Victor foi chamado por um garoto que tinha nome de artista de novela: Murilo Benicio. O menino estava numa inquietação tão grande que Victor ficou realmente preocupado.

- E ai, amigão. O que eu posso fazer por você?

- Eu preciso muito conversar com você quando não tiver mais ninguém por perto. Pode ser?

- Claro. Você está bem?

- Não. Mas eu não quero falar disso perto dos outros.
- Certo. Senta perto de nós, então. Para não correr o risco de a gente se desencontrar depois.

Victor sentou-se então, tendo Letícia de seu lado direito e Murilo do outro.
O culto começou de maneira bem estranha. O pastor Ademar Paegle disse:

- Meus queridos. Hoje nós teremos um acontecimento inesperado aqui, mas as duas pessoas principais ainda não estão na igreja. Em alguns minutos eles estarão aqui. Vamos ter uma música especial enquanto eles aparecem.

Um dos jovens, cuja mãe falecera no início do ano, foi ao microfone e disse:

- Se esse ano foi para você, assim como foi pra mim: “mais lutas que glorias”. Eu gostaria de dedicar essa música para você.

Victor percebeu as lágrimas que caíram do rosto de Murilo e o abraçou.

- Está tudo bem amigão. Eu estou aqui. Vai dar tudo certo.

A frase da música que desencadeou as emoções do menino dizia: “Minhas provações não são maiores que o meu Deus e não vão me impedir de caminhar. Se diante de mim não se abrir o mar. Deus vai me fazer andar por sobre as águas.”




Após o termino da música o pastor foi ao microfone e anunciou: os convidados especiais já chegaram. Como vocês sabem, Ricardo e Paula realizaram a cerimônia civil de seu casamento hoje pela manhã. Entretanto não tiveram condições de financiar uma cerimônia religiosa.

Priscila, irmã da noiva, pediu permissão para enfeitar a igreja para um casamento surpresa. Os noivos só estão sabendo disto agora. Junto com vocês. Os dois podem então ir para a entrada da igreja para iniciarmos a cerimônia.

Todos olharam para o casal que, apesar da incredulidade do fato, fizeram o que o pastor falou. A aparelhagem de som tocou “Jesus, Alegria Dos Homens” e toda a congregação ergueu-se enquanto o casal entrava vestido com roupas normais. Foi o casamento mais bonito em todos os tempos naquela igreja.

Jesus, Alegria Dos Homens - Coral Jovem UNIMED (João Pessoa - PB)


Após a cerimônia Victor chamou Murilo para levar sua noiva em casa. Depois de despedir-se de Letícia levou o garoto para tomar um sorvete na Praça do Derby. Pegaram os sorvetes e foram para a praça, perto da lagoa de carpas.

- E ai, amigão. O que está acontecendo?

- Olha Victor, eu só confio em você. Eu… eu vou ficar cego.

- Mas como Murilo? Você é um garoto tão saudável.

- O médico falou que tem uma bactéria no meu olho. E custa muito caro para tirar.
Quanto?

- Dez mil reais.

- Olha. Eu não tenho esse dinheiro. Mas eu vou dar um jeito. Você confia em mim?

- Eu só confio em você. Não disse para mais ninguém.

- Quando tem de ser feito o tratamento?

- O médico falou que um mês.

Victor então deu um abraço no garoto, o qual estava com as emoções extremamente fragilizadas, e o levou para casa que era perto dali, indo depois para o Morro da Conceição onde morava.

Rua da Aurora - Recife  PE


No dia seguinte chegou ao escritório da CELPE, na Rua da Aurora, e foi direto para sua sala na parte de cima do prédio onde fazia negociações de fraudes. Além de ser a única na parte de cima daquele estranho edifício, tinha em comum com a de seu amigo e chefe Marcelo Henrique o fato de ter banheiro privativo.

Ele alcançou tal posição por causa do cinismo com que tratava clientes que roubavam energia. No único caso em que ele foi brando com alguém, a pobre mulher provou que além de estar morrendo, o gato foi feito por seu irmão enquanto ela se tratava de câncer em São Paulo. Victor então reduziu a multa a vinte e cinco por cento do valor.

Assim que chegou a sua sala, Victor foi direto ao telefone e ligou para seu amigo Rômulo Sued, que além de ser vereador, patrocinava a impressão do Universo Adolescrente, mais conhecido como O jornalzinho.

A obra jornalística constava de duas folhas de papel A5 nas quais ele e mais alguns adolescentes e jovens da igreja publicavam suas ideias sobre a vida. Um de seus colaboradores prediletos era um adolescente que ele dizia ter nome de membro da família imperial: Hawston Fernando Pedrosa de Azevedo e Silva.

A parte mais lida era a APDL (Associação dos Por Dentro do Lance), na qual Victor publicava as gafes que os irmãos da igreja cometiam em público.
Foi após a publicação daquele periódico que ele passou a ser procurado pelos meninos e meninas da igreja, como ovelhas em busca de um pastor. Quando a secretária passou a ligação para o vereador, ele falou:

- Bom dia, nobre jornalista. Em que posso ser útil?

- Bom dia, nobre edil.  Estou com um problemão e não sei o que fazer. Um dos meninos de nossa igreja necessita fazer um tratamento para não perder a visão. E a mãe dele não tem condições financeiras para bancar o mesmo.

- Você pode trazê-los aqui na câmara hoje à tarde, com o laudo médico?

- Claro. Eu dou um jeito.

- Eu vou ligar para alguns amigos.

- Obrigado. Rômulo. Eu sabia que podia contar com você.

Victor desceu então para a sala de seu amigo Marcelo, o qual naquele ano foi nomeado seu chefe. Naquele escritório as paredes não passavam de um metro. O resto era vidro. O motivo é que, alguns anos antes, um funcionário raivoso assassinou o chefe com golpes de peixeira, até o corpo ficar mais furado que queijo suíço.

- Bom dia, magnânimo e vitaminado chefinho.

- Bom dia, Victor, o piadista.

- Se eu necessitasse dar uma saída hoje à tarde precisaria enviar outro memorando? O assunto é grave. Preciso evitar que um amigo meu fique cego.

- Nossa. Que tenso? Tudo bem. Eu vou avisar a sua honrada colega que você vai fazer uns favores para mim. Assim não preciso avisar a todo mundo, um por um.

Victor e Marcelo caíram na gargalhada, lembrando a vez em que ambos foram repreendidos por causa de fofocas da moça. Victor então mandou um memorando para o reclamante em que dizia que o mesmo tinha o hábito de ficar ouvindo fofocas de alguns simpáticos colegas. Depois enviou para a mesma, anonimamente, uma cópia do livro EU E MINHA BOCA GRANDE da pseudo pastora pentecostal: Joyce Meyer. Quando decifrou a correspondência para seu amigo Marcelo, disse:

- Onde estiver escrito honrados colegas, entenda: puta e filho de uma puta. E onde estiver escrito estima e consideração entenda: vá se fuder.

Victor não tinha o hábito de falar palavrões. Mas quando falava era pérolas do tipo: “eu só não mando você se fuder, porque eu sei que é disso que você gosta, e eu não quero deixar você feliz”.

Um amigo seu, chamado Paulo Tavares, dizia que tinha medo de qualquer coisa que ele escrevesse que tivesse mais de duas linhas.

Ao sair do escritório de seu amigo e chefe não se esqueceu de dizer:

- Chefe. Se na minha ausência você espirrar. Saúde. Viu?

Estava chovendo quando Victor parou em frente à casa de Murilo em seu Gol branco. Buzinou e então vieram ele e sua mãe D. Lídia. Eles se cumprimentaram e Victor partiu então para a câmara de vereadores no centro da cidade, perto das Torres Gêmeas.

No escritório do vereador eles foram atendidos por seu assessor Marcos Torres e este os levou imediatamente à sala de Rômulo.

- Amigo Rômulo. Acho que você conhece a irmã Lídia e seu filho Murilo.
O vereador estendeu a mão para a mãe do garoto. Após os cumprimentos pediu que os três sentassem em um sofá que havia na sala e pegou uma cadeira para si mesmo. Ele entregou a Dona Lídia um envelope em cima de sua mesa.

- Aqui dentro tem o endereço da clínica HOPE do Dr. Benjamin Carson. É a mais avançada do estado em tratamento de olhos. O doutor Carson é americano e é meu amigo. Ele compreende bem o que seja não ter recursos. Ele só conseguiu se formar porque sua mãe, que era doente mental o obrigava a ler dois livros por semana, além de trabalhar muito para sustentar a ele e ao irmão.

- Eu li o livro dele, disse Victor. Chama-se: Mãos Talentosas e se não muito me engano foi feito até um filme sobre sua vida. O livro sobre ele me deu mais incentivo ainda para ler.

- O Ben estará esperando por vocês em uma hora.

Dona Lídia de tão emocionada só conseguia dizer:

- Deus abençoe o senhor, irmão Rômulo. E você também Victor.

O Santo E A Porca - Ariano Suassuna


Duas semanas depois Murilo apareceu na CELPE, onde Victor trabalhava, com um pudim de leite, a sobremesa predileta dele. Ali, na frente de todos os seus colegas, o garoto entregou o pudim a Victor e disse:

- Obrigado por salvar minha vida. Se meu pai não tivesse morrido eu queria que ele fosse igual você. Eu te amo Victor.

Victor abraçou o garoto e o convidou para assistirem uma peça de teatro. Ao final do dia foram então, junto com Letícia, ao Teatro do SESI assistir O Santo e A Porca com um ator conhecidíssimo na cidade: Francisco Pontes de Lima.



Anos mais tarde quando comprou a casa do lago em Taunton, Victor recebeu nela, uma caixa vinda da Hungria cujo remetente era um jogador de basquete chamado Murilo Benício.

Na caixa, além de um bilhete bem carinhoso, havia uma camiseta do time Falco Kosárlabda Club Szombathely no qual Murilo jogava. Estava autografada por todo o time e Victor a emoldurou e pendurou na parede de sua biblioteca ao lado do pôster do astro Tom Brady, do The New England Patriots.


Primeiro capítulo do romance NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS
Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR
DORSEY / VICTOR DORSEY
NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325
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