O SILENCIO DOS INOCENTES






“Você me revelou que era eu o seu amor. E que nunca deixaria de me amar. Mas logo veio alguém e roubou você de mim. E eu não consigo e nem quero me conformar.” 
Candida – The Fevers ou The Originals


Pensamentos apavorantes se passavam na mente de Lincoln Holts enquanto seguia de taxi para Manhattan. Ele pensava em seu pai e no irmão e dizia a si mesmo: Deus não teria coragem de tirar de mim as únicas pessoas que realmente se importaram comigo e me fizeram acreditar que ele existe. Ele não pode ser tão mesquinho. Enquanto seguia no transito caótico que se tornou a cidade de Nova Iorque naquela manhã, ele pensava nas inúmeras vezes que seu pai o tinha feito rir. Inclusive usando a si mesmo como exemplo.

Menina De Trança - Antonio Marcos


Passou por sua mente a vez em que Victor Almeida, quando adolescente, enviou uma carta para uma namorada que rompera o compromisso, na qual continha somente a letra de uma música que ele escreveu de próprio punho. A moça em questão sempre usou tranças no cabelo e Victor ficou tão indignado com o rompimento que copiou a canção que terminava dizendo: “Menina de trança, matou a esperança de um pobre rapaz. E um tempo tão lindo, ficou na lembrança. Menina de trança. Que falta me faz”. Aquela falta angustiante que o jovem Victor deve ter sentido, seu filho de modo algum queria ter diante da possibilidade de perder o pai.


Moisés, porém, suplicou ao Yavé, o seu Deus, clamando: “Ó Senhor, por que se acenderia a tua ira contra o teu povo, que tiraste do Egito com grande poder e forte mão? Êxodo 32:11

Take My Hand - Elvis Presley


Lembrou também da explicação dele de por que escolheu aquele sobrenome. Durante o ano em que sua noiva padeceu de câncer sempre que faziam culto em sua casa e perguntavam que música ela gostaria de ouvir a resposta era uma canção chamada Take My Hand Precious Lord a qual eles cantavam na versão que o cantor Jessé fez. Victor veio a saber que a música original foi escrita por alguém que perdeu a esposa durante o parto. E o filho dois dias depois. Aquela veio a ser tornar sua música favorita, principalmente cantada por Elvis Presley. Então, quando tornou-se cidadão americano, ele adotou o sobrenome de Thomas Andrew Dorsey o compositor da música.

Quando chegou a Manhattan, Lincoln teve de descer do carro e pegar as mochilas que ele e seu pai trouxeram porque era impossível um carro passar por ali. Sua força adolescente e a firme resolução de encontrar-se com o pai fez com que ele nem sentisse o peso da bagagem. Terror era a palavra escrita em cada rosto que ele via. Pessoas falavam sem muita certeza na bomba que diziam ter ouvido no subsolo da torre antes de os enormes buracos serem feitos nos andares de cima, por algo que ninguém sabia direito o que era.

Quando chegou perto da torre que Victor deveria estar, Lincoln perguntou a um policial o que tinha acontecido. As informações eram desencontradas, mas houve um rumor sobre possíveis aviões, cheios de gente, batendo nos prédios. Mas, absolutamente ninguém que esteve ali quando as explosões aconteceram viram tais aviões. Ao tentar entrar na torre, ele foi impedido por um bombeiro, o qual falou que outra bomba poderia explodir a qualquer momento e que a entrada dos prédios estava cheia de gente morta. Neste momento ele vê um corpo que cai do alto da torre quase em cima de sua cabeça.

Lincoln pegou então suas mochilas e procurou seu celular para ligar para seu pai, quando percebeu que tinha esquecido no hotel. Como a bateria estava descarregada, ele o tinha colocado na tomada do banheiro e nem se lembrou de ir lá quando pagou a conta. Para azar do garoto, seu pai tinha trocado de celular e ele não lembrava o novo número. O que o deixou realmente angustiado.


Foi então que o inimaginável ocorreu. Diante de seus olhos, o menino viu o prédio onde seu pai deveria estar ser demolido por diversas explosões, vindas primeiramente do subsolo e depois do alto da torre. Tudo o que ele conseguia dizer para si mesmo era:

-Meu pai, meu pai, meu pai.


O rádio do táxi no qual Victor Dorsey estava dava notícias desencontradas. A única coisa certa é que o terror havia se instalado na cidade de Nova Iorque. Alguns rumores de que alguns árabes, liderados por um muçulmano escondido em uma caverna no Afeganistão, tivesse planejado sequestrar aviões e jogá-los contra prédios nos Estados Unidos, o faziam pensar em como uma torre daquele tamanho pudesse ruir por causa do calor do combustível.



Ao chegar perto da torre que ainda se mantinha ereta Victor Dorsey deparou-se com uma situação realmente apavorante: uma multidão ensandecida espancava um jovem, simplesmente porque ele estava com uma touca preta, e sua aparência o fazia lembrar o povo árabe. O rapaz que pela primeira vez conseguira sair de seu país só conseguia pedir por socorro em português. Victor então chegou perto da multidão e disse que eles estavam matando um homem inocente.

Sem saber o que fazer da vida, ele só conseguia olhar em cada rosto ali, tentando encontrar neles seu filho. Foi então que o pavor tomou conta novamente de todos os presentes. A outra torre, caindo simetricamente, tornou a ilha de Manhattan um amontoado de cinzas. Sabendo que ele não seria de ajuda nenhuma por ali, nem mesmo para seu filho, Victor tomou a decisão de sair de lá e tentar ligar para Lincoln e Vinny na esperança de que eles estivessem bem. Voltou então ao hotel onde estivera hospedado e alugou outro quarto. Ao vê-lo, o gerente entregou a ele o celular de seu filho o que o deixou sem ação.

Se existe inferno na terra, ele pode ser encontrado no coração de um jovem triste. E Lincoln tinha todos os motivos para estar triste. Sua mente não conseguia pensar com clareza sobre a possibilidade de seu pai estar vivo. Toda a certeza que ele tinha é de que Victor estava dentro da torre na hora em que ela caiu.

E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui, e vigiai. Marcos 14:34


Seu cérebro vagava agora entre todo o desprezo que ele tinha por Brian Holts, e todo o amor que Victor Dorsey lhe fez saber o significado. No parque, onde ele estava naquele momento, havia uma fonte e ele passava de um lado a outro, pensando em Deus e por que ele poderia ter prazer em todo aquele sofrimento que ele estava passando agora.

Hamlet - Mel Gibson


Será se não foi suficiente toda a miséria que ele passou em sua infância? A paisagem estava deserta. Visto que o povo, numa curiosidade mórbida, preferia ficar perto do lugar que passou a ser divulgado como Marco Zero, e ele andava de um lado para outro dizendo coisas desconexas. Em dado momento ele passou a recitar em português uma das cenas que seu pai mais gostava em um filme de William Shakespeare, imaginando-se na pele do ator Mel Gibson, um dos prediletos de Victor Dorsey:

O que é mais importante para o homem: estar vivo ou não estar? Quando a mente humana sofre as pedradas e flechas de um destino implacável é que ele faz esta pergunta a si mesmo. Então você tem de decidir sofrer passivamente ou sair armado contra inumeráveis problemas que o atingem e tentar acabar com eles.
Talvez você prefira morrer, ou dormir. Nada mais.

E quando dorme você acha que acaba com as dores em seu coração. Ou com as centenas de traumas de que, como mortal, seu corpo está sujeito. Este é o alvo que todos buscam ansiosamente: morrer ou dormir. Dormir e quem sabe sonhar! Mas é ai que está o dilema. Pois até termos o sono da morte que tipos de sonhos poderemos ter?

Quando tivermos finalmente deixado esta carcaça mortal em que habitamos, isto deverá nos dar um descanso. Este é o aspecto que faz da vida uma calamidade tão longa.

Pois quem desejaria suportar as chicotadas e o deboche do tempo? A ditadura dos opressores? A soberba do homem orgulhoso? As dores que, tal qual uma mulher que vai dar à luz, sofre quem ama e é desprezado? A lentidão que a lei tem para trazer a verdade para quem é injustiçado? A insolência dos ocupantes de cargos públicos, ou o desprezo que alguém que deveria ser recompensado por sua paciência recebe de quem não merece honra? Quando ele mesmo poderia aquietar-se para sempre com um mísero punhal?

Quem preferiria suportar, gemer e suar, debaixo de uma vida decrépita, se não fosse o pavor de algo além da morte. E audaciosamente aventurar-se a ir ao país de onde viajante algum jamais voltou.

Isto é o que nos confunde o desejo de viver. E nos faz preferir sofrer as doenças que nós temos, a voar para outras das quais nunca tivemos notícias.
E esta consciência faz de todos nós um bando de covardes. E por isto nossas resoluções naturais são adoecidas por um punhado de pensamentos pálidos. E as ambições de grandes momentos e decisões a este respeito, faz o sabor das coisas momentâneas empalidecer e perder o motivo para agir.

Saí nu do ventre da minha mãe,  e nu partirei. Yavé  o deu, o Yavé o levou;  louvado seja o nome de Yavé. Jó 1.20


- Garoto, você está bem? Qual o seu nome?

- Quem é você? Porque você está falando em outra língua comigo?

- Você não sabe falar inglês? Qual o seu nome? – Perguntou com um forte sotaque português, o policial que tentava de comunicar com Lincoln.

- Meu nome é Lincoln Almeida. Alguém sabe dizer onde está meu pai? Eu não sei falar inglês. Meu pai deveria estar aqui comigo.

- Por que você está sem roupa? Você foi assaltado?

– Não sei o que está acontecendo comigo. Por que tiraram meu pai de mim?

- Nós vamos ter de levar você para um hospital, está bem? Você concorda em vir? Você precisa de ajuda.

- Meu pai está em um hospital? O que ele foi fazer lá?

- Não sabemos onde está seu pai, garoto. Só que você não pode ficar nu em um lugar público, onde existe muita gente morta. Você aceita nossa ajuda? Onde estão suas roupas e seus documentos?

- Eu não sei. Eu só lembro de me despedir do meu pai e do meu irmão num aeroporto.

- Qual o nome deles?
Impossível Acreditar Que Perdi Você
Emerson de Paula


- Victor e Vinícius Almeida. Eu tenho outro irmão chamado Murilo, mas ele mora na Europa.

O policial pegou então gentilmente no ombro de Lincoln e o colocou dentro do carro. Outro policial encontrou as mochilas dele com seus documentos, que estavam num banco próximo dali. Como o caos estava abundante na cidade de Nova Iorque ele foi levado para um hospital em Newark, no vizinho estado de Nova Jersey.

Após conversar com Vinny e explicar a situação, Victor ligou a televisão na esperança de encontrar alguma resposta de tudo aquilo. Foi então que o desespero tomou conta dele. O nome de Lincoln Holts constava na lista de mortos da queda das torres gêmeas.

Enquanto isto em Stoughton, Vinny, que tinha acabado de escapar da morte desesperou-se com as notícias dos atentados, temendo que seu pai e seu irmão pudessem estar mortos.

Naquele dia, três mil e cinquenta pessoas foram brutalmente assassinadas, sem que tivessem cometido qualquer ato pessoal que justificasse aquela selvageria. Quatrocentos e cinco delas, entre bombeiro e policiais, no mais nobre ato de amor, deram suas vidas para salvar a de outras pessoas.

Décimo segundo capítulo do romance NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS
Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR
DORSEY / VICTOR DORSEY
NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325
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