QUEREM ME ENLOUQUECER



“Hoje mais um dia de tristeza para mim passou. Nem no meu olhar, nada se alegrou. Sinto-me perdido no vazio que você deixou. Nada quero ter. Já nem sei quem sou”.
Impossível Acreditar Que Perdi Você – Emerson de Paula
Cenas de Um Amor Para Recordar

Sensações perturbadoras se passavam na cabeça de Lincoln: Que lugar seria aquele? Por que estava sendo mantido prisioneiro? Onde estavam seu pai e seu irmão que não estavam com ele? O prédio em questão era bem amplo o ar condicionado era ligado o tempo todo. Havia um refeitório onde eram servidas ótimas refeições. E vários quartos onde parecia morar um monte de gente abobalhada. Pessoas estranhas passavam de um lado para outro. A maioria delas pareciam saídas de um filme de zumbi. Havia também homens e mulheres de branco que vez por outra os fazia tomar algum remédio.

- Boa tarde, Lincoln. Meu nome é Paulo Ferreira e eu sou seu médico.

- Boa tarde. Onde eu estou? O que estou fazendo aqui? Onde estão meu pai e meu irmão:

- Você está em um hospital psiquiátrico na cidade de Cape Cod, em Massachussetts. Você chegou aqui hoje pela manhã. Brian Holts não está aqui. Qual o nome do seu irmão?

O branco radiante daquele lugar ofuscava os olhos de Lincoln. Isto confundia mais ainda sua mente adolescente que, para tentar sobreviver, pensava no amor de seu pai e seu irmão. A pessoa que estava diante dele vestia-se todo de branco, era calvo e tinha uma aparência de um daqueles árabes de filmes que tantas vezes vira com Victor. A saudade que tinha dos dois fazia seus olhos parecerem opacos e, o brilho que tantas vezes emanara deles parecia estar ficando pálido.
Szombathely - Hungria

- Quem é Brian Holts? Eu não conheço ninguém com esse nome.

- Seu nome não é Lincoln Holts?

- Não. Meu nome é Lincoln Almeida. Meu pai chama-se Victor Almeida e o nome do meu irmão é Vinicius. Nosso irmão Murilo joga basquete na Hungria.

- Qual foi a última vez que você viu os dois.

- Eu, meu pai, meu irmão Vinny estivemos nas torres gêmeas em Recife três dias atrás. E me lembro de me despedir de meu pai no aeroporto de Guarulhos em São Paulo. Parece que foi ontem.



- Você sabe em que país está?

Lágrimas corriam abundantemente daquela face que já soubera o que significava ser plenamente feliz. Ele sentia que algo estava errado, mas não tinha certeza do que fosse. Tristeza era a única palavra capaz de definir o que ele sentia. Ele se coçava o tempo todo. Como não conseguia ficar quieto, movia as pernas como se marcasse o tempo de uma música.

- Eu deveria estar no Albergue da Juventude em Chicago nos Estados Unidos. Meu pai economizou durante um ano para que eu pudesse fazer um intercâmbio lá. Mas não me lembro de chegar em Chicago. A única coisa que me vem à mente foi o beijo de despedida que meu pai me deu. Meu irmão está na Academia da Força Aérea em Pirassununga, São Paulo. Ele passou dois anos estudando para poder entrar lá. As férias dele terminaram no dia em que fomos às torres gêmeas.

 - Você conhece algum lugar chamado Porto de Galinhas no Brasil? Ou já esteve na cidade de Brockton em Massachusetts?

Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram.  Mateus 23:37
Porto de Galinhas - PE


- Porto de Galinhas é perto da cidade que eu nasci. Esta outra cidade eu não faço ideia de onde seja.

- Fale alguma coisa do Brasil.

- Por que você está me fazendo tantas perguntas? Isto aqui é algum presídio?

O interlocutor de Lincoln tinha a voz bem pausada e paciente. Parecia ter mesmo interesse em ajudá-lo a se recuperar. Ele não forçava as perguntas, para que o garoto se sentisse à vontade.

- Você sabe o que é um hospital psiquiátrico?

- Sim sei. Mas eu sou normal. Por que eu deveria estar em um deles?

No início as suas palavras são mera tolice, mas no final são loucura perversa. Eclesiastes 10:13


- Eu estou tentando ajudar você, meu jovem. E nosso maior interesse vê-lo recuperado e levar você para sua família. Por que você não me fala sobre seu pai?

- Meu pai é a pessoa mais sensacional do mundo. Ele sempre me levava e ao meu irmão para assistir filmes. Creio que foi assim que eu quis conhecer Chicago. Vendo a cidade em muitos filmes que meu pai alugava para nós.

- Você lembra qual foi o último que vocês assistiram? Sobre o que era?

Lembro sim. Foi O Caminho Para A Perdição com Tom Hanks. É sobre um mafioso que não quer que seu filho siga seus passos.  É também o caminho espaçoso que leva ao inferno.

- Como são seu pai e seu irmão.

- Eu e meu irmão somos gêmeos. Mas ele é bem diferente de mim. Ele é tem uns vinte centímetros a menos que eu. Tem as sobrancelhas pretas bem acentuadas. O cabelo dele é bem liso e preto. Ele tem um sorriso tímido e por isto acho que vive rodeado de gente. As pessoas o acham cativante. Eu também acho. O Murilo tem os olhos iguais aos meus, mas ele é bem moreno e tem o cabelo preto e liso.

- E o seu pai? Como ele é?

- Meu pai é muito engraçado. Vive fazendo piada de tudo. Ele é mais ou menos do tamanho do meu irmão. Tem os cabelos loiros ondulados, que mantém sempre curtos, e aqueles olhos azuis dele parecem dois faróis que iluminam a vida de qualquer um.

- Você não disse nada sobre sua mãe. Por quê?

- Ela morreu quando eu e meu irmão tínhamos dez anos. Teve câncer. Meu pai gastou muito dinheiro com ela. Só uma cirurgia que ela fez custou oitenta e sete mil reais. Faltam muitos anos para ele terminar de pagar à empresa que ele trabalha. O empréstimo foi feito em noventa e sete anos.



- Vocês moram onde?

- No Morro da Conceição em Recife. Fica perto de um lugar chamado Casa Amarela.

- Você já esteve na cidade de Nova Iorque?

- Não. Tudo o que eu sei sobre esta cidade é através de filmes que eu assistia com meu pai, o Murilo e o Vinny. Sei também que tem um lugar no Brasil chamado Maranhão, onde tem uma cidade que também tem o nome de Nova Iorque. Existe algum jeito de eu ligar para o meu pai no Brasil?

- Você sabe o número?

- Sei sim.

- Aguarde um pouco que vou buscar um cartão telefônico. Ligar pela linha normal é muito caro.
Enquanto o Dr. Paulo saia da sala Lincoln ficou pensando em Victor e Vinny e no desespero que era estar em um lugar estranho e sem saber onde ele estava. Quando o médico voltou foi para sua escrivaninha e convidou Lincoln a sentar-se na cadeira em frente à mesma. Ele estava com um cartão retangular no qual havia um número telefônico e uma tarja cinzenta que após ser raspada revelou outro número. O médico ligou para o número em questão e, após instruções da secretaria eletrônica, discou o número que apareceu quando raspou o cartão. Quando ouviu a última instrução deu o telefone a Lincoln e disse:

- Agora você pode ligar o número. Mas não se esqueça de discar o código do país e também o código de longa distância, caso haja. O telefone tocou três vezes e então uma voz feminina atendeu.

- Celpe, boa tarde. Joselandia falando.

- Alo! Meu nome é Lincoln e estou falando dos Estados Unidos da América. O meu pai chama-se Victor Almeida e trabalha aí. Eu posso falar com ele, por favor?

- Repita o nome do seu pai.

- Victor Almeida.

- Olha. Eu acho que você está fazendo alguma confusão. Victor Almeida não trabalha aqui há pelo menos dez anos. Ele mora nos Estados Unidos e, pelo que eu o saiba, não tem nenhum filho.

Uma lágrima caiu do rosto de Lincoln o qual ficou completamente confuso.

"Torne insensível o coração deste povo; torne surdos os seus ouvidos e feche os seus olhos. Que eles não vejam com os olhos, não ouçam com os ouvidos, e não entendam com o coração, para que não se convertam e sejam curados”. Isaías 6:10

- Eu não estou entendendo. Ela disse que meu pai não trabalha lá. O que está acontecendo? Por que querem me enlouquecer?
O Dr. Paulo pediu o telefone e falou calmamente:

- Boa tarde. Meu nome é Paulo Ferreira e eu sou psicólogo, em uma instituição para doentes mentais nos Estados Unidos. Você conhece alguém chamado Lincoln, Victor, Murilo ou Vinicius Almeida?

- Olha, como eu disse para o rapaz que falou antes, eu realmente conheço alguém chamado Victor Almeida, mas ele mora nos Estados Unidos há pelo menos dez anos. E em todo o tempo em que convivemos aqui no Brasil, nunca soube que ele tivesse um filho, principalmente alguém que aparenta já não ser uma criança. A única pessoa com quem ele teve um relacionamento afetivo foi sua noiva e ela morreu de câncer. Por isto que o Victor pediu demissão e foi embora do país.

- Obrigado então por sua atenção.

Tanto Lincoln quanto o Dr. Paulo ficaram mais confusos ainda após aquela ligação.

- Sabe garoto. Seu caso é realmente estranho. Eu não sei se você está preparado para o que eu tenho para lhe dizer.

Pode falar Doutor. Principalmente se o que disser ajudar a encontrar o meu pai.

Acaso pode uma mãe esquecer sua crinça que ainda mama? Pode ela não sentir amor pela criança que gerou? Entretanto, mesmo que isto fosse possível, eu nunca esqueceria de você. Isaias 49:15
Palavras - Roberto Carlos



- Como você mesmo ouviu a moça dizer existe realmente alguém chamado Victor Almeida. Só que ele não é seu pai e você não é brasileiro. É possível até que você nunca tenha ido ao Brasil, ou que tenha algum irmão. Seu nome é Lincoln Holts e eu simplesmente não entendo como você não consegue falar inglês. Mas é melhor conversarmos amanhã. É melhor você descansar.

Lincoln saiu daquela sala completamente atordoado e o que é pior, não entendia nada do que ninguém ali, a não ser o Dr. Paulo falava com ele. Ficou então grato de que, mesmo com seu forte sotaque lusitano, tivesse encontrado alguém com quem podia se comunicar.   

Décimo terceiro capítulo do romance NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS
Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR
DORSEY / VICTOR DORSEY
NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325
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