UM LUGAR NO CORAÇÃO





“Lindo. E eu me sinto enfeitiçado. Correndo perigo. O seu olhar é simplesmente lindo. Menino bonito. Eu então quero olhar você!”Menino Bonito – Rita Lee ou Fernanda Takai

11 ANOS DEPOIS

Dezembro do ano dois mil foi um mês particularmente frio na Nova Inglaterra, berço da colonização americana. No natal daquele ano, Victor, aos 36 anos, resolveu que estava mais do que na hora de deixar sua vida de ermitão e conhecer gente nova. Só se relacionava com seus empregados desde que chegou à América dez anos antes.

Em todo aquele tempo nunca tinha pisado em uma igreja.  Seus constantes desentendimentos com os irmãos de sua juventude fizeram dele um cristão sem muita paciência para com qualquer tipo de rebanho.

Apesar de ter apenas setenta mil habitantes, Taunton era uma cidade que ele considerava bonita. Mesmo com toda a distância que sempre tinha de percorrer para ir às várias partes da cidade ele passou a ter um amor muito grande por ela. Especialmente depois que comprou o estabelecimento de seu ex-patrão.
Sempre que passava pela Winthrop Street, a caminho do trabalho, olhava para aquela igreja e ficava imaginando como seria o povo de lá. Aquela noite de natal era a ocasião ideal para matar a curiosidade.

Deu folga aos empregados e partiu para saber como os americanos contariam aquela história de natal. Sua casa na Bay Street era um pouco longe do centro e na ocasião o lago havia congelado, como sempre acontece naquela parte do ano. Pegou-se rindo ao imaginar o pobre bebê numa manjedoura num frio daqueles, sem um aquecimento adequado.

Não era o sujeito mais elegante do mundo e teve certa dificuldade para vestir algo apropriado. Colocou uma calça jeans, uma blusa de lã verde e uma jaqueta de couro de boi que comprou em Recife, sua cidade natal, na viagem que fez no ano anterior.


Apesar de sua alergia a cheiros fortes, usou um perfume bem marcante. Talvez receoso de que o banho demorado não tivesse sido suficiente para tirar o odor de cozinha. Mesmo com sua aparente timidez, o cabelo loiro que sempre mantinha aparado para evitar os caracóis que se formavam e seu par de olhos azuis davam a ele um certo charme.

Um Lugar No Coração - Cena Final



Quando passou com seu Lincoln azul marinho em frente à igreja, notou que havia poucas pessoas. Passou adiante, deu a volta pela Potter Street e foi ao Dunkin Donnuts, próximo à rodoviária, tomar um café com leite e croissant. Coincidência ou não sempre que ia lá via uma senhora com cabelo completamente branco na fila. Como ela não estava ali ficou imaginando onde estaria comemorando o feriado de inverno, como o politicamente correto tinha rebatizado o natal.

Primeira cafeteria Dunkin Donuts (1950 - Quincy - MA)


Após o lanche voltou à igreja, estacionou o carro na vaga que havia próximo a uma pick up vermelha bem velha e entrou. Depois ficou sabendo que aquele era o carro de um dos pastores da igreja.

O prédio da igreja tinha uns duzentos anos e a parte do culto era um lance de escada acima. Embaixo era realizada a escola dominical e ficava também um telão pelo qual os membros da igreja que tinha algum tipo de deficiência física assistiam ao culto. Mas havia também um artefato no qual eram colocados os irmãos com cadeira de rodas que os levava para a parte de cima. E Victor pensou que aquilo era meio sinistro.

Igreja Batista da Rua Winthrop - Taunton - MA


O aquecimento fez com que ele começasse logo a sentir calor. Tirou então sua jaqueta e sentou para esperar o início da programação. Não havia muita gente, talvez por causa da neve que caiu o dia todo, e ao dar uma olhada geral notou um adolescente com olhar triste, sentado em uma das fileiras de banco. Achou estranho ele estar sozinho, numa ocasião em que as famílias se reúnem para comemorar. Sentou ao lado dele, estendeu a mão, deu um sorriso e falou com seu sotaque anglo-pernambucano:

- Feliz natal!

O garoto deu um sorriso meio forçado e devolveu o cumprimento.

- Feliz natal pra você também!

Tanto Victor quanto o garoto ao seu lado, ficaram impressionados quando chegou o irmão Curtis levando seu filho ao colo. Ele parecia um sujeito bem feliz e um pai bastante carinhoso.

Chegou à frente e colocou a criança numa cadeira de rodas trazida por sua esposa. A criança tinha uma doença degenerativa e era extremamente frágil, apesar de sempre sorrir para ele. A dedicação do jovem pai era realmente admirável.

Antes da apresentação, o pastor Jason Freeman saudou a todos e leu um texto da bíblia em Gênesis que dizia: “pois foi pra mim um alívio ver seu sorriso amigável. Como se fosse o sorriso de Deus”. Parecia estar falando de si mesmo pela simpatia que emanava de seu rosto.

A Matança Dos Inocentes - Nicolas Poussin (1634) 
Após uma breve oração, deu-se a apresentação teatral.  A solidão daqueles dois filhos de pátrias distantes foi completamente demolida pelo que se seguiu. a igreja resolveu inovar naquele ano com um musical muito engraçado, contando as trapalhadas do rei Herodes para encontrar o Deus menino.

A estrela da noite foi o irmão Curtis e, em certo momento, Victor teve receio de que suas gargalhadas fossem entendidas como um ato de irreverência. Esta impressão foi desfeita pelo pastor que, ao final do culto, o cumprimentou com um caloroso abraço:

- Seja bem-vindo à Igreja Batista da Rua Winthrop! Espero que tenha gostado.

- Foi tudo muito engraçado e a mensagem foi passada. Isto é o que importa.

- Vamos ter um lanche lá embaixo. Junte-se a nós.

Victor não estava realmente com fome, mas ao ver o garoto perto do qual havia sentado dirigindo-se para a saída, disse que iria sim.
Apressou-se para falar com o menino e não precisou muito esforço para convencê-lo a comer algo. Sentaram-se na mesma mesa e, apesar do sotaque inconfundivelmente estrangeiro, o diálogo foi fácil.

- Percebi que você está sozinho. Sua família não quis vir?

- Eu não tenho família. Moro sozinho já faz um tempo.

- Antes que eu esqueça meu nome é Victor. E você é?

- Lincoln.



- Que coincidência. Meu carro tem seu nome. Sei que você já percebeu que não sou americano. Moro aqui há dez anos e também moro só. Meus amigos são os empregados do meu restaurante. Como pode um garotão bacana como você não ter família?

- Não gosto de falar disso. Acho que é suficiente você saber que sou alguém que necessita urgentemente de um emprego e que está passando uma fase ruim.

- Você teria algum problema em trabalhar para um estrangeiro?

- Eu trabalharia até para um marciano. Mas não sei fazer muita coisa.

- Meu garoto. Você já ouviu falar em alguém chamada Joni Eareckson Tada?

- Não. O que tem ela?



Joni Eareckson Tada pintando

Ela é uma pintora muito talentosa. Eu até comprei um quadro dela, o qual mantenho em minha biblioteca. Uma vez eu estava me sentindo um inútil, por causa de um cozinheiro que estava me perseguindo, por não saber falar inglês. Cheguei então em casa e a vi pintando um dos seus quadros, em um canal de TV a cabo. Advinha como ela pinta?

Parecendo não estar gostando muito do sermão, Lincoln disse meio ríspido:

- Pega o pincel e mela de tinta. Eu acho.

- Nem tão simples assim. Antes de melar o pincel, como você diz, alguém o coloca em sua boca. A cabeça é a única parte do corpo que ela consegue mexer desde que sofreu um acidente aos 19 anos. Você acha que consegue usar alguma parte do corpo além da boca?

- Consigo sim.

Victor pegou um cartão do bolso, entregou a Lincoln e disse:

- Olha garoto. Geralmente eu sou muito cauteloso em empregar alguém. Mas acho que de algum modo posso ajudar você. Promete que me procura amanhã? O restaurante abre às nove. Ao chegar, diga que Victor o está aguardando e veremos do que você é capaz. Não me desaponte.

Lincoln colocou um sorriso enfeitando seus olhos verdes. Afastou um pouco o cabelo necessitado de um corte e disse:

- Sabe, hoje quando cheguei aqui estava me sentindo um miserável. Tudo tem dado errado prá mim nos últimos tempos. E vim aqui sem nem mesmo saber se Deus se importa comigo. Falei com ele lá na entrada, meio amargurado, e disse que precisava que ele mostrasse que me ama de verdade. Estou começando a acreditar que ele me ouviu. Eu não faço ideia do que você vai fazer por mim, mas posso assegurar que vou ser o melhor empregado que você já teve na vida.

- Estou de saída. Você aceita uma carona?

- Não é necessário. Moro a cinco minutos daqui. Muito obrigado. Hoje eu sei que realmente foi um feliz natal.

Segundo capítulo do romance: NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS. Esta obra está registrada com @copyright na CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO e não pode ser reproduzida no todo ou em parte sem a expressa autorização do autor.

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