UMA MENTE BRILHANTE







“Eu sonhei um sonho no qual minha vida era tão diferente deste inferno que estou vivendo” I Dreamed A Dream – Susan Boyle ou Anne Hathaway

- Bom dia Lincoln. Preparado para mais um dia em busca de respostas?

O Dr. Paulo ficou tão impressionado com o telefonema para o Brasil no dia anterior, que resolveu tirar o dia para dar uma atenção especial ao seu paciente com memória alternativa. Afinal como aquele menino poderia esquecer o próprio idioma e lembrar o número de um telefone em um país estrangeiro, no qual alguém que ele afirmava ser seu pai tinha trabalhado há exatamente uma década?

- Bom dia, doutor. Confesso que fiquei muito confuso. O que você acha que está acontecendo comigo?

Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês. João 14:18

- Ainda não sei. Mas posso assegurar que de algum modo sua vida está ligada com a de alguém chamado Victor Almeida. Vamos ao refeitório? Se você não se incomodar eu gostaria de passar o dia de hoje com você, longe de minha sala. 

- Acho que vai ser bom. Esta aparência de hospital me deixa enjoado.

- Podemos fazer então o seguinte. Eu vou pedir uma autorização especial ao diretor e podemos dar uma volta fora daqui. Creio que você não vai fugir de mim. Não é?

Simão Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. João 6:68

- E eu iria para onde, se nem sei quem sou ou onde moro? E se o que eu penso que sei aparentemente é falso? Durante o dia, o Dr Paulo disse a Lincoln que, quando ele chegou ao hospital no dia anterior, estava simplesmente apavorado e falando coisas sem nenhum sentido, tanto em inglês como português.

- Com o passar do tempo notei que você sempre falava de um mesmo assunto. Estátua da Liberdade e o mundo acabando perto dela. Por isto pensei que de algum modo você tinha ido lá. Além de que a polícia encontrou você bem próximo daquele local. O médico levou o garoto a uma lanchonete que havia próximo ao aeroporto e pediu duas cocas. Sentaram-se um em frente ao outro numa mesa. O local era bastante movimentado. 


Eu sei como guardar toda a tristeza e a dor. Eu choro na chuva.

Crying In The Rain
Art Garfunkel e James Taylor


- Você lembra o que aconteceu ontem?

- Sim. Tudo é muito confuso, porque eu lembro bem de estar com o meu pai e meu irmão em Recife. Então, não sei como posso nunca ter estado lá.

- Eu não posso dizer que não esteve. Eu gostaria que você me falasse dessas lembranças. Quem sabe uma delas nos dê uma pista do que aconteceu?

- Por mim tudo bem. O que você quer saber? - Fale de sua infância. Lincoln, com o olhar vago olhava para as pessoas que passavam de lá para cá. Sentia-se vivendo um um mundo de sonhos. Seus olhos aparentavam cansaço e tristeza. Sua voz era melancólica, como se estivesse contando uma história de fadas ao contrário. Aparentemente o felizes para sempre viera por alguns instantes e foi logo seguido por uma eternidade de tragédia e melancolia.

- Pelo que eu me lembro. Se é que eu me lembro. Eu, meu pai, minha mãe, Letícia, e meus irmãos Murilo e Vinicius, morávamos em um lugar chamado Morro da Conceição.

Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos.  Mateus 24:24

- O que aconteceu com sua mãe?

- Ela morreu de câncer quando eu e Vinny éramos crianças. Meu pai sofreu muito. Mas eu me lembro de minha mãe sempre paciente e confiante, de que Deus estava do lado dela.


No Dia Em Que Eu Sai De Casa
Dablio Moreira e Marcos Henrique
Os Dois Filhos De Francisco


- Como era sua vida material? Vocês viviam bem?

- Não tinha nada de luxo. Nossa casa era bem simples tinha uma varanda cheia de flores e plantas de todos os tipos. Minha mãe sempre cuidou muito de plantas e animais. Ela chegou a criar até um camaleão. Minha mãe sempre foi muito cuidadosa com os filhos e falava sempre para termos cuidados com os resultados das coisas que fazíamos.

O refrigerante já havia terminado, mas os dois preferiram continuar sentados ali. O lugar ficou movimentado em instantes, mas todo aquele alvoroço não aumentava em um tom sequer, a triste opera contada pelo garoto.
Edifício sede da Companhia Energética de Pernambuco - Recife

- E o trabalho do seu pai? Ele gostava? - Meu pai sempre falava de seu trabalho naquela companhia que nós ligamos ontem.

- Ele tinha muitos amigos lá. E também muita gente que detestava ele e que ele também detestava. Parece que o trabalho principal dele era atender aquele telefone que eu liguei. Vivia contando coisas engraçadas, porque as pessoas ligavam o número errado do telefone e ele tinha de explicar o número correto. Como ele contou isto muitas vezes acho que acabei decorando. Você acha que eu inventei tudo isto?

- Bem. Por mais gênio que você seja, não tem como inventar uma empresa que existe de verdade e na qual uma pessoa real tenha trabalhado em sua juventude. E o que é mais importante, em outro país.

- Então o que eu posso imaginar é que você realmente tem algum vínculo afetivo com Victor Almeida. Só precisamos saber quem ele é e onde ele está.

O interesse genuíno do doutor Paulo fazia com que Lincoln se sentisse à vontade para responder a todas as perguntas
E sonhou: e eis era posta na terra uma escada cujo topo tocava nos céus. Gênesis 28:12

- Eu lembro que meu pai sempre me levava e a meus irmãos a um lugar chamado Shopping Tacaruna. Sempre que andávamos na escada rolante ele contava uma piada que me irritava, sobre um português preso na escada rolante quando faltou energia. Até que o Murilo começou a contar a mesma coisa. Eu ficava muito irritado com os dois.

- Não entendi a piada.

- Finalmente um sorriso saiu do rosto do menino, ao lembrar de como gostava do humor mórbido de Victor Almeida. A confusão que se passava em sua mente era notória em cada traço de seu angustiado rosto adolescente.

- É que no Brasil o povo considera os portugueses meio burros.

- Pelo jeito, o senhor Victor Almeida se considera muito engraçado. Esse é um dos motivos de eu sentir tanta falta dele. Ele fazia minha vida ser feliz.

Pedrinho (Júlio Cesar) em O Sítio do Pica Pau Amarelo

- Você tinha algum amigo?

- Tinha um amigo muito bacana chamado Eustáquio. Eu sempre ia à casa dele, assistir Tarzan. E outro, de nome Pedrinho, que morava em um lugar chamado Sítio do Pica Pau Amarelo.

Tiraste de mim os meus amigos e os meus companheiros; as trevas são a minha única companhia. Salmos 88:18

- Como eu lhe falei. Ontem, quando você chegou aqui, falou coisas sem nenhum sentido. Como eu falo português por causa dos meus avôs eu compreendia alguma coisa. Parece que você sempre se referia à destruição da cidade de Nova Iorque. Com o tempo percebi que seus relatos eram cenas de filmes como Planeta dos Macacos, Inteligência Artificial, Armaggedon, O Dia Depois de Amanhã e outros. Você sabe o que aconteceu por lá?


- Eu vi num canal de televisão, um avião batendo em uma das torres. Mas pensei que fosse algum filme. Eu não entendi o que eles diziam. Mas o que me deixou sem entender nada, é que quando vi aquelas cenas, lembrei-me de algo que meu pai lia para mim e para meu irmão quando éramos crianças. É algo da Bíblia.

- Você lembra o que é? Seu tivermos uma bíblia você pode mostrar? - Sei sim. Eu só não entendo como posso lembrar-me disso e saber o que aconteceu comigo numa realidade alternativa. Ou mesmo esquecer a língua que eu falo. Já que você diz que eu sou americano. Quando foi pagar a conta da lanchonete, o doutor Paulo percebeu que tinha esquecido a carteira. Pagou então a conta com as trinta moedas que encontrou no porta luvas do carro. Entraram então os dois no veículo o dirigiram-se para livraria Barnes e Noble. 

Então, Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos. Mateus 27:3 
 A Paixão de Cristo 
- Eu creio que isto é um mecanismo de defesa do seu cérebro; porque você deve ter sofrido um trauma muito grande com relação ao seu pai, isto é, Victor Almeida. - Mas aí eu teria de esquecer do meu pai e dos meus irmãos. E não lembrar deles em acontecimentos que não existiram. Ambos foram a estante de livros religiosos e o Dr. Paulo pegou uma bíblia e entregou a Lincoln.

- Aqui está. Se você conseguir encontrar a passagem que falou eu posso traduzir para você.

Lincoln pegou a Bíblia e abriu em Isaias 25:30. Entregou ao médico e este traduziu para o português:

A DISTÂNCIA - EMERSON DE PAULA (THE FLASH)

- “No dia da grande matança, quando caírem as torres, riachos e rios de água corrente haverá em cada colina alta e em cada montanha elevada”.  Meu jovem, isto é muito mais impressionante do que sua memória alternativa. Pelo jeito quem fez aquilo lá sabia bem a Bíblia. Os aviões caíram em locais onde havia riachos, rios, colinas e montanhas. Isto é até inquietante.

- E como meu pai poderia me dizer que as torres iriam cair quando eu tinha dez anos de idade, se


ele não me conhecia naquele tempo?

- Alguém que você conheceu lhe mostrou isto. É improvável que você só tivesse conhecido este texto após o que aconteceu em Nova Iorque. Talvez alguém que estivesse envolvido com o planejamento do que ocorreu. Mas, se for isto, então foi planejado a muito mais tempo do que todo mundo possa imaginar.

- Então eu não sou tão louco quanto pareço.

- O que eu posso lhe assegurar com certeza é o seguinte: Existe alguém chamado Victor Almeida, e sua vida está ligada à dele. E existe alguém chamado Brian Holts de quem você nasceu. É provável que você tenha perdido os dois ao mesmo tempo. E de algum modo sua mente está fazendo você ter uma ilusão alternativa, porque não lhe interessa ser filho de quem é. Só que é possível também que o senhor Almeida possa estar vivo. Senão, de algum modo, você iria lembrar a morte dele. E de algum modo esse seu trauma está ligado ao que aconteceu em Nova Iorque no dia onze de setembro. - 

The Promise (A Promessa) - Tracy Chapman


Enquanto se dirigiam à saída de livraria uma música começou a tocar. No instante em que ouviu a voz de Trace Chapman, Lincoln começou a cantar perfeitamente em inglês, enquanto uma lágrima caia do seu rosto. A música dizia: “Se você esperar por mim. Então eu irei até você. Embora eu tenha viajado para tão longe. Eu sempre guardo um lugar para você em meu coração”. Comovido com o pranto de Lincoln, o doutor Paulo o abraçou. E aquele abraço o fez lembrar-se de algo.

- Daddy! - Você se lembrou de quem é?

- Não. Mas me lembro de estar com meu pai no alto de uma montanha e ele me perguntar: “do que você me chamou, garoto? ” E eu respondi: “de daddy”. E lembro também de eu e meu irmão Vinny estarmos na Casa Branca quando ele recebeu a cidadania americana, dada pelo presidente Bush. E estranho, mas eu não lembro do Murilo lá. Ele nunca deixaria de estar presente numa ocasião tão importante para o nosso pai. 

Montanha Monadnock - New Hampshire - EUA


- Isto parece algo bem mais real do que sua infância imaginaria. Creio que logo, logo, você vai lembrar de tudo. 

Décimo sétimo capítulo do romance NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR DORSEY / VICTOR DORSEY NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325 Nenhuma parte deste romance poderá ser reproduzida ou copiada, constituindo infringimento da lei de copyright.

Comentários

Qual seu grande projeto?

Qual seu grande projeto?

Postagens mais visitadas