VIAGEM FANTÁSTICA



“Por você eu tenho feito e faço tudo o que puder. Prá que a vida seja mais alegre do que era antes”. 
Alma Gêmea – Fábio Júnior

Às sete da manhã do dia seguinte Victor foi acordado pelo som de seu despertador. O objeto era uma coisa medonha em forma de vaqueiro nordestino tocando sanfona. Ele tinha achado muito legal quando o viu em uma das lojinhas da Casa da Cultura em Recife. O mesmo lugar onde, no tempo do governo dos militares, o futuro governador do estado Miguel Arraes ficou preso. Como som o relógio “cantava” a música de Dominguinhos:

“Que falta eu sinto de um bem. Que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém. Eu levo a vida assim tão só”.  

Quando sua namorada Letícia ouviu o som da geringonça a primeira vez falou:

- Pelo jeito você está mesmo carente!

Gilberto Gil e Dominguinhos - Que Falta Me Faz Um Xodó


Após acordar Victor tomou um banho rápido e escovou os dentes. Vestiu uma calça social bege, uma blusa branca de mangas compridas por dentro da calça e um colete de lã vermelho que parecia ter saído de algum filme sobre a Escócia. Pegou também no armário embutido do quarto, uma daquelas embalagens de guardar smoking, na qual havia um uniforme branco completo do Boston Red Sox, seu time de basebol predileto. Como todo uniforme oficial tinha uma blusa vermelha por dentro apropriada para o inverno. Ele pegou também um tênis número 42 e o boné do time na parte de baixo do armário. O tênis combinava perfeitamente com o resto da roupa.



Nem necessitou pentear o cabelo, pois na semana anterior havia mandado passar máquina dois, como sempre fazia. Ele achava um absurdo ter de pagar doze dólares para passar cinco minutos em uma barbearia.

Acendeu a luz em cima da escada e desceu para o subsolo com a roupa do Red Sox, incluindo a meia vermelha. Viu que Lincoln não estava mais no sofá e bateu na porta do quarto. O garoto o atendeu com a aparência de quem tinha acabado de escapar do Chuck, o brinquedo assassino.

- E ai. Bela adormecida. Pronto para sair de casa? Lincoln tampou a boca com a mão enquanto bocejava e falou com uma voz de sono:

- Nosso turno no restaurante não é só à noite?

Você já ouviu falar de viver curtindo a vida adoidado? Pois é isto que vamos fazer hoje. A não ser que você prefira dormir o dia todo como a Cinderela.
Ainda com sono, Lincoln respondeu:

- Chefe, você ainda não me pagou. Lembra?

- Acho mesmo que vou ter de lhe dar uma surra, pra você parar com essa mania irritante de me chamar de chefe. Mas tudo bem. Você já ouviu falar do conselho da vovozinha para sua neta caso um tarado tentasse agarrá-la?

- Nunca ouvi falar.

- Pois bem. Ela disse com todas as letras: num caso desses resista, resista, resista, resista, resista. Se não adiantar nada, relaxa e goza. Entendeu a mensagem?

- No mínimo era uma avó brasileira pra falar de uma coisa dessas. – disse rindo.

Victor estendeu o uniforme para Lincoln e falou:

- Acho que isto serve em você. O Lou Merloni, do Red Sox, não sabia meu número quando mandou prá mim. Eu nunca usei. 

- Você é realmente louco. – disse ao pegar a roupa e os sapatos. – se fosse meu eu não deixaria ninguém chegar nem perto. Você conhece o Lou?

- Eu o conheci no Legal Harborside, em Boston, quando fui assistir à final do campeonato. Cada um tem a moedinha número um que pode. Eu prefiro me divertir com você, a ficar adorando essa roupa no meu armário. Eu vou ouvir uma música enquanto você se arruma.

Lincoln deixou a porta do quarto entreaberto e Victor o ouviu dar uma gargalhada estrondosa, quando colocou no home theater a música do Júlio Iglesias:


“Louco, eu estou louco por me sentir tão solitário. 
Eu estou louco, louco por me sentir tão triste. 
Louco, por pensar que meu amor poderia prender você. 
Eu sou louco por tentar, Eu sou louco por chorar.  E eu sou louco por amar você”.

Ao sair do quarto, após o banho, o garoto brilhava de tanta felicidade. O uniforme e os sapatos pareciam que tinham sido feitos sob encomenda para ele. Mas o que realmente o deixou bonito foi o sorriso enfeitando seus lábios rosados. Ao aproximar-se de Victor este soltou uma de suas piadinhas infames.

- Você está mais cheiroso que filho de barbeiro. Agora sim vou poder passar algumas horas apreciando meu presente. Eu nunca abri o armário para olhar para ele.

- Um dia quem sabe eu compro um pra mim também.

- Para que? Esse ai é seu. Eu o estou trocando por algo que lhe pertence.Empresta a chave do quarto?

- Obrigado. O quarto está aberto. O que você vai fazer?

- Confie em mim. Você está com seus documentos?

- Estou sim. Já podemos ir.

- Só um minuto que já volto.

Victor entrou no quarto e voltou com as duas mochilas de Lincoln.

- Tem algo importante aqui dentro?

- Não. São só roupas velhas. As únicas que eu tenho. Mas são velhas mesmo. O que você vai fazer com isto?

- Digamos que está mais do que na hora de a Fênix renascer das cinzas e eu vou dar uma mãozinha pra ela.

Os dois dirigiram-se à porta que dava direto para a saída da casa. Victor jogou seu chaveiro para Lincoln, dirigiu-se para o assento de passageiros.

- Você dirige. Estou com preguiça hoje. E também vai ser legal estar em um Lincoln dirigido pelo Lincoln.

- Certo Victor. Vou cobrar uma grana extra de você no final de semana, por ter que dar uma de chofer. – O sorriso estampado em seu rosto era tão grande que ele nem conseguia disfarçar. – Onde vamos?

- No Jordan’s Furniture Imax. Está passando um filme do Tim Robins chamado O Suspeito da Rua Arlington. Já faz uns dias que estou a fim de ver, e eu odeio assistir filme sozinho. Mas antes acho que seria legal dar uma aparada no seu cabelo. O que você acha? Afinal você trabalha em uma cozinha.

- No problemo. Meu penteado estilo: “não tenho grana pra cortar” já estava mesmo me irritando.




Pararam em uma barbearia perto da saída da cidade, ao lado do Dunkin Donuts. Ao fim do serviço Victor tirou algum dinheiro da carteira e pagou à senhora que tinha cortado o cabelo do menino. Disse a ela uma frase de seu filme predileto com o mesmo tom de voz do Edward Furlong:

- Easy money! (Dinheiro fácil!).

Lincoln ficou pasmo quando Victor pegou as duas mochilas e as jogou em um enorme depósito de lixo da cafeteria. Depois entraram para pegar café com leite e croissant.



- Sou viciado nessa coisa. – disse enquanto entrava no carro com as embalagens para viagem. – eu já te falei de minha reação, a primeira vez que me perguntaram se uma refeição que eu pedi era pra comer no local ou prá levar?

- Não. Qual foi? – Lincoln pegou seu café e saiu com o carro.

- Eu fiquei imaginando para onde ela queria que eu fosse. A expressão que vocês usam não faz o menor sentido para nós. Dá a entender que vamos simplesmente sair do local e não vamos levar nada.

Lincoln quase se mela com o café, quando entendeu o que Victor disse. Victor olhou para o garoto com sua roupa nova e cabelo cortado e falou:

- Agora sim. Você está parecendo o homenzinho do papai.

- Só se for. – respondeu meio chateado – aquele velho é tão nojento, que uma vez me deu uma bronca porque eu liguei a cobrar, pra perguntar pra minha mãe se ela ia fazer festinha surpresa de aniversário pra mim. Eu tinha só sete anos de idade.

- Não era bem no senhor Holts que eu estava pensando! Deixa eu brincar de ser feliz um pouquinho.

Lincoln deu um sorriso meio sem graça.

- Não acho que você iria querer ter um filho como eu.

- Você ficaria surpreso se tentasse saber a verdade sobre isso.

E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús. E iam falando entre si de tudo aquilo que havia sucedido. E aconteceu que, indo eles falando entre si, e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles.  Lucas 24



Naquele dia não estava nevando, mas o frio estava bem intenso. Lincoln Ligou o aquecedor do carro, pegou então o Caminho Para Emaus e a Interestadual 93 a caminho de Rayhan que por fim os levaria a Boston passando por Quincy. Ligou o som do carro e achou estranha a música com Sergio Reis que começou a tocar.

- A voz deles parece triste. Sobre o que ele está cantando?

Filho Adotivo - Sergio Reis


- É sobre um velho pobre, que financiou a faculdade dos seis filhos com trabalho árduo e foi deixado num asilo e esquecido por eles. No final da música ele agradece a Deus porque seu filho adotivo, o único que não se formou porque o pai não aguentava mais trabalhar, veio buscá-lo para morar com ele, a esposa e o neto que ele iria ganhar. É a música predileta de minha mãe.

- Mesmo sem ser seu filho, nem adotivo, eu garanto que nunca faria isto com você. Eu sei o que é não ter ninguém que se importe comigo. Se Deus realmente existe, eu tenho certeza que ele deve ser igualzinho a você. Seus pais não moram com você?

Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome. Isaías 63:16

Victor passou a mão no cabelo de Lincoln o qual não fez nenhuma reação contrária.

- Olha garoto. Eu fico feliz por você pensar assim e desde o começo eu já sabia que você era um bom menino. Mas fazer o que eu estou fazendo é muito fácil afinal eu tenho condições de fazer isto. Difícil é fazer quando não pode como os meus pais. Eles sempre foram pobres e mesmo assim sempre foram pessoas muito generosas. Eu conheço pelo menos duas pessoas que eles ajudaram que os consideram seus pais. Respondendo a sua pergunta. Eles nunca se acostumariam em outro lugar que não fosse o Brasil. Uma vez por ano eu vou visitá-los já que eles também acharam muito estranho vir aqui até para passear.

O senhor Holts sempre foi bem de vida, mas eu acho que quando morrer ele vai levar toda sua grana pro inferno.

Chegando em Boston, Victor disse que precisava fazer algo no número 32 da Summer Street. Ele ensinou o garoto o melhor caminho para chegar lá, e o deixou de boca aberta quando entrou na Men’s Wearhouse. Ele nunca tinha ido a um lugar tão chique. O garoto ficou parado na porta sem saber o que fazer.

Hamlet - Mel Gibson


- Está esperando o que para entrar? Um convite pessoal do príncipe Hamlet?

- Nem sei quem é este cara. – disse ao entrar

- Esquente não que um dia eu o apresento a você. Vai gostar das perguntas dele sobre se vale ou não à pena estar vivo.

Uma moça incrivelmente simpática chegou até os dois e fez a famosa pergunta de todas as lojas:

- Posso ajudar vocês?

- Meu garoto aqui está precisando reformar o guarda roupa. Mostre pra ele o que você tiver de melhor.

Lincoln olhou para Victor com um ar de interrogação, mas foi em frente quando seu patrão falou para ele não se preocupar e seguir a moça. No final não se sabia quem estava mais feliz. Lincoln com roupas que nunca teve na vida ou a vendedora com uma comissão bem recheada. 

Ao saírem da loja carregando um monte de sacolas cheias de roupas, sapatos, cintos, meias e outras coisas o garoto perguntou:

- Quando você acha que vou terminar de pagar isto a você? Creio que vou levar no mínimo uns 97 anos. Mesmo que você me dê aumento de salário todo mês.

- Faz só um favor pra mim. Para de pensar em dinheiro só por hoje. Você não faz ideia do orgulho que tive ao ver seu empenho no trabalho ontem. Isto é só um presente, de alguém que acha que vale muito a pena investir em um garotão bacana como você.

Levaram as sacolas para o carro que ficou bem cheio. Lincoln entre incrédulo, emocionado e feliz, disse então:

- Já deu para notar que você é muito chegado em abraços. Mas quem está doido prá abraçar você agora sou eu. Você se importa?

Victor abriu os braços já se sentindo o pai do mesmo. Lincoln parecia um anjo de tanta felicidade. Abaixou-se, beijou a bochecha de Victor e disse:

- Obrigado Vic. Você é a pessoa mais sensacional que eu conheci em toda minha vida.

E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem? Lucas 22:48

Ainda emocionado com tudo aquilo Lincoln ligou o carro e foi em direção ao cinema. Só por curiosidade perguntou:

- Vi que você pagou com cartão normal do banco. Você não tem cartão de credito?

- Eu não gosto de dever nada para ninguém. Principalmente gente como J.P. Morgan e David Rockfeller. Esse povo podre de rico empresta uma grana que não existe e depois esfolam você vivo quando não consegue pagar os juros astronômicos que eles cobram.

- Como assim? Eles não são os donos da grana? Como pode ela não existir?

O prazer que Victor tinha de conversar com aquele menino, era algo tão notório que qualquer pessoa menos atenta os confundiria com pai e filho.

- Eles simplesmente lhe emprestam a grana que já arrecadaram dos juros que outras pessoas pagaram e dos depósitos que os correntistas fazem. Simples assim.

- Como você sabe dessas coisas? Eu nunca soube disso.

- A internet não serve só pra gente ficar mandando filmes pornôs uns pros outros. Ela pode ser algo bom ou ruim dependendo do uso que você faz. Tudo bem que o governo a inventou para vigiar a vida do povo. Mas você pode usá-la contra ele também.

- Foi o governo que inventou a internet?

- Mais precisamente o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América. Você sabia que a CIA, aquela que não é a loja, tem um departamento só pra financiar filmes de Hollywood?

- Victor, você sabe de coisas que me deixa espantado. Que bom que você é meu amigo.

E, chegando ao lugar chamado Gólgota, que se diz: Lugar da Caveira, E, havendo-o crucificado, repartiram as suas vestes. Mateus 27:33,35

Naquele dia além do Jeff Bridges, tentando evitar que o Tim Robins destruísse Nova Iorque, eles viram também The Skulls no qual o loirinho do Paul Walker participava de uma conspiração na Universidade de Yale que era bem próxima dali. E Lincoln ficou se perguntando se aquelas coisas dos filmes poderiam de algum modo acontecer.  

Quinto capítulo do romance: NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS
Catalogação NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS – AS CRÔNICAS DE VICTOR
DORSEY / VICTOR DORSEY
NÚMERO DE REGISTRO: 595.801 LIVRO: 1.140 FOLHA 325
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